Cláudelania – Defensora dos Direitos Humanos

Mãe, avó, mulher negra e defensora dos Direitos Humanos. Cláudelania Morais faz um resgate de sua trajetória atravessada pelo sistema punitivo cearense. Articulando vivência e atuação, mostra a miséria dos sistemas socioeducativo e prisional.

“O mesmo motivo que me fez entrar é o mesmo que não me deixa sair: o amor.”

Gostaria que a senhora se apresentasse, contando de onde vem, e como foi seu início na luta.

É tão simples a gente falar de alguém, mas quando temos que falar da gente… Vou tentar falar quem é Cláudelania Morais: é uma pessoa que entrou nessa luta, nesse sistema socioeducativo em 2012, por conta do filho mais novo, que na época tinha 14 anos. Ele passou 1 ano e 7 meses no sistema socioeducativo, e hoje sou mãe de um sobrevivente desse sistema.

E logo em seguida, o sistema prisional me chama, por conta de um irmão. Ele havia praticado um homicídio com legítima defesa e, então, por não cumprir alguns mandatos, teve a prisão decretada e foi parar no sistema prisional. Assim, em 2018, entrei nesse sistema.

Assim, quando entro, já estava um pouco mais preparada, por conta da militância em Direitos Humanos, ou seja, mais “gato escaldado” desse sistema miserável que é o prisional.

Então, quando você pergunta “quem é a Cláudelania?”, às vezes eu também me pergunto [risos], ou qual é essa demanda. Ademais, a Cláudelania é mãe, é avó, é uma pessoa que busca por direitos, a favor do cumprimento de deveres; me considero uma abolicionista penal. Sou alguém que luta pela vida. Luto todos os dias pela vida, por mim, por você, por nós e por eles.

A senhora nasceu em Fortaleza?

Não. Nasci no interior do Ceará, em Solonópole. Mas cheguei em Fortaleza aos 10 anos de idade, já tenho 51, então são 40 anos de capital, né?

Queria saber como essa vivência na periferia moldou sua visão de mundo, enquanto uma mulher negra, da classe trabalhadora…

Sim, sou uma mulher negra com muito orgulho. Fui uma mulher criada na adolescência e juventude na periferia. Vivi naquela comunidade do Passaré, vizinha ao Centro Socioeducativo. Cheguei à idade de 12 anos e não saí, pois até hoje tenho parentes por lá (moro próximo a Messejana, mas sempre estou naquela região). E, quando vim para Fortaleza, antes dos 10 anos, não fui diretamente para lá; somente depois fui para aquela localidade, quando meus pais ganharam uma casa.

Essa moradia foi construída em mutirões pela COHAB (Companhia de Habitação do Estado do Ceará). Então, fui morar naquela comunidade, vizinha aos centros; inclusive não eram tantos. Na época, só tinham o São Miguel, o Dom Bosco (que era um centro de liberdade) e o colégio 2 de Maio, que era, na época, o Dom Bosco (o Centro de Internação).

Logo depois, ao passar dos anos, em 1998, veio a construção do São Francisco, vizinho ao São Miguel. Em 2005, foi construído o Passaré, que era o Espaço Viva Gente, que tinha cursos para a comunidade, adolescentes e mães. Fui uma das que colocou a mão na massa para fazer o mosaico da parede (Centro Passaré).

Então, são muitas histórias e vivências, porque eu passei a adolescência dentro do Centro Dom Bosco, pois, como eram os adolescentes em semiliberdade, eles andavam na comunidade. A semiliberdade daquela época era bem diferente da de hoje. Os adolescentes lanchavam às 9h, depois tocava a sirene e eles saíam do centro. Aqueles que queriam sair para a rua iam para a comunidade. Daí tinha o toque de recolher às 10h30min. Nesse espaço de tempo, era onde brincávamos de cariba, de bola, ensaiávamos quadrilha junina. Então, nos meus 15 anos, brinquei quadrilha dentro do Centro Dom Bosco, com adolescentes da semiliberdade. E que hoje, ainda tenho contato com um deles, o Luciano, que, inclusive, é um socioeducador da própria unidade.

São vivências que, na minha mente, não se apagam; cada vez que vou a esses centros, sempre lembro de algo que vivi. Tenho a esperança de que esses lugares vão deixar de ser centros e voltar a ser espaços para a comunidade usufruir, para cursos, esportes, lazer, para que os jovens realmente possam vivenciar uma coisa diferente. Tenho essa esperança. Acredito que, com a luta, com a correria do dia a dia, com a militância, com o “nunca deixar pra lá”, ainda acredito que isso possa ser possível.

Através do que a senhora falou, há memórias ou vivências que te ajudaram a entender o que é o racismo institucional e estatal?

Quando eu deixei de ser a moradora da comunidade, que entrava dentro do centro para ir a uma consulta médica (era assim que o Dom Bosco antigamente funcionava para a nossa comunidade), quando deixei de ser a pessoa que entrava no Centro Passaré para fazer ou dar cursos (dei cursos de bonecas de pano), fui instrutora. Ou seja, quando deixei de entrar nos Centros Socioeducativos como visitante e passei a entrar como mãe de um adolescente infrator. A partir dessa mudança, comecei a entender a miséria que é o sistema. A falência desse sistema.

Sair do sistema socioeducativo e ir para o prisional foi onde entendi mais o quanto é preciso militar, o quanto é preciso ter conhecimento, o quanto é preciso ter essa luta, o quanto é preciso desinternar. Como é preciso desencarcerar. É difícil, mas aos poucos precisa-se ter esse conhecimento.

É preciso que a liberdade seja algo tão… Eu vejo o seguinte: o sistema prisional é falido, não recupera ninguém. Esse “Pena Justa” é uma farsa; ele é construído como se, a cada dia mais, ele quisesse resgatar para ele um ser humano que está ali dentro, preso por um ato, por um crime. Está! Mas esse sistema faz questão de resgatar, de dar uma pré-liberdade para a pessoa. Porém, a partir do momento em que eles não cuidam, não têm preocupação de como aquele indivíduo vai sair dali, é querer que ele volte. Infelizmente, tenho esse pensamento.

Nesse momento em que a senhora passa a ir como mãe para o sistema prisional, esse foi o momento em que se deu conta de que ele não foi feito para proteger a sua família e outras famílias que ali estão?

Sim, sim. Porque, como eu tinha uma visão diferente, de que os centros eram espaços em que os adolescentes poderiam ter uma liberdade, mesmo cumprindo uma sentença. Quando passei a entender a prisão, que não é um dormitório, é uma cela, foi quando passei a entender.

O coletivo Vozes foi criado em 2013, sendo eu uma das cofundadoras, junto com demais companheiras. Em 2015, comecei a encontrar e entrar em outros espaços, como o Fórum DCA. Busquei mais conhecimento de outras coisas que não conseguia entender, pois, até aquele momento, tinha uma visão limitada de uma salinha.

A partir de monitoramentos realizados pelo Fórum DCA, em 2022, foi quando conheci de fato o sistema socioeducativo. E hoje, a partir da minha participação em atividades relacionadas ao Plano Pena Justa, pude entender melhor como se dá o funcionamento das unidades prisionais.

Sob minha perspectiva, tive a impressão de que são apresentados espaços previamente preparados, que nem sempre correspondem à realidade vivida pelas pessoas privadas de liberdade. São mostradas salas recém-pintadas, maquinários que aparentam pouco uso e alas construídas pelo trabalho realizado pelas próprias pessoas presas, dentro de cursos e atividades que o Estado apresenta como parte de um processo de ressocialização. Ressocializando quem? Sempre me questionei.

Em um desses locais, havia um pátio enorme destinado a abrigar inúmeras máquinas produzidas a partir desse trabalho. Isso me leva a questionar de que forma essas atividades, de fato, contribuem para a ressocialização e quais são as condições em que esse trabalho é realizado. Na minha percepção, é necessário refletir criticamente sobre essas práticas, pois muitas vezes elas podem reproduzir relações de exploração, de escravidão, em vez de promover direitos, dignidade e oportunidades reais.

Hoje em dia, sou visitante do presídio feminino Auri Moura Costa; uma comadre está lá. Ela faz artesanato todos os dias, das 8h às 17h, para ganhar o quê? Me fala! Porque o artesanato lá não é aquele em que a família leva o material, mas o Estado distribui. Ela confecciona 30, 50 bonecas dentro de um mês, vários tapetes. Daí pergunto: a redução da pena está aonde? Porque se eu trabalho, é para reduzir a pena, né? Daí sempre me pergunto isso. Que redução é essa, que não consta nada no processo… A fulana trabalhou três meses, já está com um ano e oito, sendo que começou a trabalhar com 28 dias desde que entrou. Então, nunca vi isso, sendo que acompanho o processo dela e não tem nada. Afinal, o trabalho escravo está só mudando de nome. Esta é a minha visão.

Gostaria de um dia dizer algo diferente, como: “Sim, é diferente, realmente tem essa ressocialização. Tem o trabalho para poder edificar o ser humano. Ali dentro, as pessoas estão tentando melhorar, pois estão tendo oportunidades”. O Estado só conta quem está na faculdade, …. E aqueles que estão na enfermaria com a bolsa de colostomia infeccionada?

O sistema é escroto, pois a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização) mostra várias fotos por dia; a minha comadre aparece em dez. Porém, se a gente pegar uma dessas fotos e leva para ela se ver (exemplo próprio, fui imprimir, pois queria que ela se visse na foto), eles não deixam entrar.

Não deixaram entrar?

Eles podem divulgar uma pessoa, mas a pessoa não pode ver a própria imagem divulgada dela? É como se não tivesse uma essência; nada dela é mais dela. Ela pode ser usada, jogada, massacrada…

Ela não recebe nada pela confecção?

Não. “Mas como assim a pessoa está com um ano e oito meses trabalhando e não recebe nada?” é meio escroto.

E assim, sobre as fotos, pode até entrar com fotos, pois já levei das filhas dela, mas a foto deve seguir protocolos: a criança, no caso, tem que estar sozinha, não pode ter coisas escritas na roupa. Essas fotos podem; o que me deixou intrigada é não poder imprimir uma foto, que a própria SAP divulga nas redes sociais, para que ela própria pudesse se ver naquele dia. Ela sabe que estava lá, a foto está batida, mas ela não poder ver a própria foto… é meio louco, sabe?

Cheguei com a foto, no meio de outras que mencionei, montei em uma folha de ofício algumas fotos [não pode ser em papel fotográfico], daí, quando as agentes viram que tinha a foto divulgada pela SAP, elas disseram: “Não, não, não. Você não pode entrar com essa foto”, respondi: “Mas me diga o que tem aqui; se a própria SAP divulgou, não pode levar para ela ver ali dentro?” As agentes disseram que não podiam mesmo. Cheguei a questionar com uma agente, aí depois chegou outra, daí pedi que a chefe delas viesse. Uma delas disse: “Quem você está pensando que é para poder fazer a gente sair de onde estamos para vir aqui dialogar sobre uma coisa que você não pode?!”.

Nesse dia, não consegui mostrar a foto à comadre. Fiquei muito indignada.

A senhora lembra das grandes rebeliões nos Centros Socioeducativos?

Dia 6 de novembro de 2015, morreu Gabriel.

Onde a senhora estava nesse momento? O que sentiu?

Estava saindo pela porta do centro, meu bem. Estava terminando uma visita ao meu filho quando uma dessas maiores rebeliões, que foi no ano de 2015, começou. É uma data que jamais vou esquecer, porque é uma data em que pulei portão, pulei muro; foi terrível aquilo lá. Terrível.

Conheço as entradas do Centro Socioeducativo São Francisco, pelo menos conhecia, houve mudanças. Conhecia porque, na construção, o pai do meu filho trabalhou lá. Ele era empreiteiro na época da construção do centro. Então, mesmo depois da inauguração, em que algumas pessoas da comunidade puderam entrar para conhecer, fui uma delas.  

O que eu menos imaginei é que, depois de alguns anos, estaria em uma salinha, praticamente trancada, vistoriada, aprisionada. Mas hoje, sabe como vive meu filho? É a minha vitória de vida. Ele é um cara que se ergueu, terminou o ensino médio, trabalha para se manter, tem ambição de conhecimento, tem vários cursos profissionalizantes. Ele batalha todos os dias.

Esse é meu filho. Como a sociedade civil diz, um cidadão. Para mim, não gosto de usar essa expressão. Quando o Dr. Clístenes me encontra algumas vezes; ele diz: “Como está o nosso menino?” É tão diferente falar dessa forma, porque há uns anos, o meu filho, que vai fazer nove anos de sobrevivente, saiu em 2016. Eu fui uma das mães que se ajoelhou aos pés daquele homem, não para soltar meu filho, mas para deixá-lo lá.

Para mim, na época em que ele estava lá dentro, era a única opção que eu tinha de verdade, no meu entender, de ver meu filho vivo. De 2015 a 2016, morava em Horizonte quando ele foi apreendido. Durante esses dois anos, foram mortos entre as cidades de Horizonte, Itaitinga e Pacajus 52 adolescentes. Então, na minha cabeça, ele estando lá dentro era uma forma de saber que, no dia em que meu filho saísse dali, iríamos nos mudar para Fortaleza, ajudaria ele a ter oportunidades de vida. Ou seja, eu quis sair de Horizonte, voltar para Fortaleza, para meu filho ter uma escolha, sabe? Esperar que o lugar o recuperasse, sabia que não faria. Na minha mente era assim: se ele passasse mais tempo lá, além de estar ajudando-o a sobreviver, ajudá-lo-ia a pensar que estavam morrendo adolescentes aqui fora e ele estava guardado.

Hoje, vejo que era um pensamento muito louco, mas que, graças a Deus, deu certo.

Queria perguntar o que significa, através da sua vivência, ser mãe, ser uma mulher negra em um Estado que encarcera e humilha sistematicamente a população negra.

Antes eu me sentia mais humilhada. Não tinha esse entendimento, não que eu seja uma pessoa intelectual, mas eu sei que tenho conhecimento, tenho vivências, que uma pessoa formada em 3 ou 4 universidades não tem. Porque não é uma formação acadêmica, é a vivência mesmo. A vivência de ser visitante de porta de presídio, passar por experiências, nos meus 50 anos, que pessoas de 70, 80 anos nunca passaram. A experiência não está na idade, está na vivência. E eu não desejo a ninguém as experiências que tive dentro desses dois sistemas.

A diferença nesses dois sistemas é a idade, do menor para o maior. Porém, em termos da crueldade, não há diferença nenhuma. São massacres. É um impedimento que um ser tem de seguir uma trajetória de vida, porque dificilmente uma pessoa que sai do socioeducativo ou do prisional, consegue viver uma vida liberta totalmente. Até hoje, meu filho não gosta de coisas de plástico dentro de casa, copos, jarras, pois isso o faz lembrar da vivência de 8 anos atrás.

Como agora eu entro aqui no quarto e dou essa entrevista, sei que ele está no outro quarto. Nisso, não sei como é para ele me ouvir falando dessas vivências, sabe? Eu nunca parei para perguntar a ele o que realmente representa… Tipo, quando vou para alguma viagem, por exemplo, quando fui para o 8º Encontro Nacional de Mães e Familiares Vítimas do Terrorismo do Estado, ele até brincou e disse para a irmã dele: “Eu patrocino essas viagens para minha mãe, e você deu o que a ela para levar nessa viagem?”. Aí eu digo: “É, filha, uma viagem dessa para Santa Catarina iria me custar no mínimo uns 5 mil reais, porque só 3.200 reais foram de passagens, mas tem a hospedagem e outras.” Aí eles começam a brincar.

O lado positivo de tudo isso, inclusive falo muito nos encontros, de ter entrado no sistema socioeducativo, é hoje poder participar de um Seminário do SINASE, que me levou não só para a cidade de Recife, mas para conhecer outras mães, pessoas, ter trocas de conhecimento. Assim, isso é o que posso usufruir por tudo que passei com meu filho. E se eu tivesse que passar por tudo de novo, por amor a ele, eu passaria. Só que hoje, passaria de uma forma mais erguida, pois tenho apoio, conhecimentos, tenho pessoas, na vida que me ajudam a me erguer, que não tinha há 12 anos atrás.

Hoje me sinto mais forte, mais capaz até mesmo de ajudar outras pessoas que caem nesse sistema miserável, principalmente o prisional, ficando perdidas sem saber como se direcionar para fazer uma carteirinha, o que se pode levar, por exemplo. Então, nós vamos e conversamos com as mãezinhas, falamos dos agendamentos, dos protocolos dos malotes… São conhecimentos que não quero manter só para mim, mesmo que não sejam acadêmicos, são vivências que acredito que se tornam ajuda para essas pessoas.

Como vocês constroem esse apoio entre vocês, enquanto coletivo, e as famílias?

Na verdade, chegou um tempo em que o Vozes era porta de centro. A gente sabia, porque na época as visitas eram no meio da semana. Nós nos reuníamos entre uma articulação do coletivo e decidíamos ir, por exemplo, à porta do Dom Bosco, pois ia ter visitas das mães, tal… Íamos, panfletávamos, colocávamos o telefone no papelzinho, fazíamos o convite para elas participarem do grupo. Todavia, hoje está mais difícil de fazer, por conta das dinâmicas dos territórios.

Nesse sentido, as articulações que temos com familiares que entram no sistema são por meio do WhatsApp. Eu mesma estou em dois grupos: um do sistema prisional e o do socioeducativo. O coletivo deixou de ser só do socioeducativo, porque algumas mães que tiveram seus filhos nesse sistema migraram para o prisional. Há também as Mães da Memória, pois o Vozes carrega hoje a bandeira da memória, em que temos mais de vinte fotos de meninos mortos pelo terrorismo do Estado.

Então, sinto-me muitas vezes nessa luta, quando vou a um encontro desses e vejo muitas mães chorando porque o corpo do filho não foi encontrado, como muitas da Bahia que lutam há dezoito anos para receber um atestado de óbito do filho… E eu sou uma mãe de um sobrevivente. De um sobrevivente que é um sobrevivente! Que quer estar bem, que vive bem graças a Deus, que tem uma outra visão para a vida.

Porém, do coletivo Vozes, eu sou uma dessas poucas (não falo com orgulho), pelo contrário, falo de uma forma que, quando entro dentro de um centro, onde posso falar com um adolescente, ir a um Abraço em Família, ou quando vou com o Fórum DCA na porta, na cela, e posso conversar, pegar na mão do adolescente, tocar e dizer: “Olha, acaba com essa história de que você entrou aqui e está perdido, que está fudido, lascado”. Eu não meço palavras, pois o linguajar do adolescente não é aquele de formação acadêmica. Então não se usam palavras rebuscadas, sou mais direta: “acaba com essa história de dizer que um adolescente que infringiu a lei só tem dois destinos: saiu do centro socioeducativo ou ele vai para o cemitério ou para o presídio! Não, porra! Tu vai para qualquer canto que tu quiser, pois basta tu querer”. O adolescente fica olhando assustado para mim, daí pergunto se foi porque o chamei de porra, mas logo digo para não se preocupar, pois o meu filho já passou por dentro dessa cela fedida que ele está, e hoje ele trabalha por conta própria, tem uma moto agregada ao iFood, que comprou com o suor dele, já tem quatro formações profissionalizantes (barbeiro, pizzaiolo, técnico de ar-condicionado e eletricista).

Então, quando digo aos meninos que meu filho também passou por isso, é para mudar a cabeça deles, de que não existe só a bala e a algema, é mentira! Você pode fazer qualquer coisa. Aí eles começam a perguntar qual o ano em que meu filho passou por lá. Eu falo tranquilamente, e se for em um centro que ele não passou, eu digo para os meninos que ele passou por outros. Meu filho passou pelo Passaré, São Francisco e Dom Bosco, e dou esses exemplos.

Porém, reforço a eles que hoje ele quer distância desse lugar, não por causa do medo, mas sim, porque ele teve coragem de mudar, e cada um de vocês tem a capacidade de fazer diferente.

A senhora mencionou no começo sobre os malotes. A esse pensar, como você avalia a política prisional do governo Elmano e as suas consequências para as famílias de presos? A exemplo das visitas, dos cortes de malotes, cortes de direitos…

Uma bosta. Eu tô falando contigo e tenho a prova bem aqui [Mostra uma garrafa pet de 500ml, preenchida até a metade de creme de pentear na cor branca]. Tive que voltar com isso aqui. Como o vidro de creme que comprei era pequeno e não deu para encher essa garrafinha, não pode entrar. Olha, dessa cor aqui [creme na cor rosa] também não pode entrar por causa da cor e da quantidade.

Daí eu te pergunto: por quê? Eles têm alguma parceria com alguma marca? Empresa? O que pode entrar, por exemplo, é o Palmolive de bambu, pois já tem o vidro transparente.

Mas é isso, todas as vezes que se vai deixar um malote, tem algum empecilho. Ainda bem que eles não padronizaram, por exemplo, ir deixar de tênis. Você pode ir de tênis, calça jeans, e tal; melhor que eles não fizeram uma frescura de fardamento. Porém, já vi gente sendo barrada em uma entrega de malote porque estava de calça preta. A pessoa teve que ir às barracas comprar uma calça legging de outra cor para poder entrar e fazer a entrega do malote. É muita sacanagem. Na verdade, esse sistema todo é muito sacana.

A gente é como um pedacinho de isopor na água, ficamos boiando ali, pois eles nos jogam de um lado para o outro de qualquer forma. E, como nosso objetivo é fazê-los entrar, nós temos que engolir a seco aquele sapo com couro e tudo, sabe?

E sobre os alimentos? Pão, bolo, …

Não, não pode mais. Já tem um tempo, desde quando o Mauro Albuquerque entrou, que acabou. Antes, a gente podia levar sanduíche; eu alcancei isso para o meu irmão. Ele entrou em 2018 e saiu em 2022. Nesse período, podia levar até quatro sanduíches, com apenas queijo e presunto, nada de margarina, maionese, essas coisas meladas. Um refrigerante de até 2 L podia entrar.

Hoje não pode mais nada. Até se for levar uma criança para a visita, tem que levar aqueles biscoitos sem recheio. O Nescau deve ser dentro de uma garrafinha de refrigerante, mamadeira não entra. Tem que ser tudo em garrafa PET para essa criança que vai participar da visita.

E todos os alimentos continuam sendo vistoriados.

Dentro do que você vivenciou, tem alguma memória marcante de visita que nunca saiu da sua cabeça? E o que esse momento te ensinou ou como te afetou?

Acho que estão me passando vários momentos. A gente ficar na quadra de esporte, que nem existe esporte ali, é mais para visita. Menos mal, pois tiraram a gente de um galpãozinho, agora é o artesanato lá. Essa quadra fica na entrada do Auri, tem o primeiro body scanner, que não é fechado, e posso dizer que esse é o menos complicado, pois a gente só sobe em uma esteira, ele é totalmente aberto.

Um outro momento que passei foi nas visitas, todas esperando, para que, depois do encerramento, quando as presas voltam para dentro, fiquem em uma sala perto dos banheiros, e as visitas, mais de cem, esperando. Foi quando essas agentes começaram a bater nas presas, gritando. Assim, teve tiro de borracha, foi muito tenso. Acho que algumas detentas começaram a brigar por questão de ciúmes, e só duas agentes não conseguiram conter, daí apareceram três ou quatro armadas. Foi aquele momento horrível, os familiares passando mal. Tinham senhoras que terminaram as visitas, mas ainda não tinham saído, pessoas que tiveram o primeiro contato com o sistema ali. Para mim, ver uma coisa dessas não é novidade, já entro preparada para tudo, entende? Mas, para pessoas que tiveram seu primeiro contato com o sistema, começaram a passar mal com os tiros, os barulhos. Levamos uma senhora para a fila, enquanto uma agente mirava a arma para nós, dizendo que não poderíamos sair da fila. Foi muito tenso. Esse foi um dos piores dias de visita que passei.

Diante dessas memórias, o que te sustenta a continuar nessa luta, na resistência, mesmo nesses momentos de maior dor, cansaço?

O mesmo motivo que me fez entrar é o mesmo que não me deixa sair: o amor, o esperançar, o acreditar. Fico pensando: entrei por um rapazinho, e é por ele mesmo que não saio. Porque ele me ensinou muita coisa. Uma delas foi compreender que a luta é árdua, dura e sofrida. A luta, muitas vezes, chega até a feder. Há momentos em que, ao entrar em um lugar daqueles, o peso do aprisionamento e do sofrimento deixa em nós uma sensação difícil de explicar.

Nas visitas de colaboração realizadas em algumas unidades, saía de lá carregando uma sensação muito forte, difícil de traduzir em palavras. Na primeira vez que vi toda aquela situação miserável, tudo o que eu queria era chegar em casa e tomar um banho bem quente. Era o impacto do ambiente, do peso do aprisionamento e das condições vividas pelas pessoas privadas de liberdade.

Entrei por amor ao meu filho, mas por amor à luta, à liberdade, o esperançar e o acreditar na mudança é o que me permite continuar. É o que me segura. Porque eu não sei como seria mais essa Cláudelania, que não vai para uma reunião do Fórum DCA, que não vai para uma reunião do Fórum de Segurança Pública, da Frente Estadual do Desencarceramento, que não está no coletivo Vozes dando bom dia às mãezinhas que vão visitar. Eu não sei como seria. Só sei que desistir é coisa para fracos, e eu não sou.

Perguntando um pouco mais sobre o coletivo Vozes, quais são os maiores desafios que enfrentam como mães e familiares organizados?

O coletivo está em vários espaços decisivos. Um dos maiores enfrentamentos que nós temos é o financeiro. Nós concorremos a editais e editais, por recursos, e não é fácil. Até para irmos a um Abraço em Família, tem a demanda por transporte, por materiais para atividades nos centros, tudo envolve o financeiro.

E assim, essa falta do Estado de reconhecer que a sociedade civil traz um aconchego, um acolhimento, um histórico diferente de luta. Essa falta de reconhecimento do Estado com a sociedade civil, pois precisa estar nesses espaços para segurar a mão, para ajudar as coisas a funcionarem. Então, essa falta de reconhecimento é o que muitas vezes nos barra.

Hoje o Vozes tem uma importância nesses lugares; a SEAS (Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo) nos convida a estar dentro dos centros, diferente da outra secretaria anterior, que não queria saber. Fizemos zuada na frente da SSPDS (Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social), fizemos batuque, dançamos samba, cantamos funk; foi há uns anos, viu? Nós passamos o dia inteiro e, no final do dia, por volta das 16h, eles nos atenderam, pois não aguentaram o barulho em frente à secretaria (risos), e ainda fizemos um troféu para o Josbertini Clementino; era um par de algemas e um cacetete.

Nós já fizemos muito barulho por aí. Gosto de ser coletivo.

Queria saber da senhora, e do coletivo também, como você enxerga o futuro contra o encarceramento em massa no Ceará? Quais sonhos, metas ainda te movem?

Um dos sonhos é que os centros socioeducativos sejam todos demolidos, interditados. Que venham a ter mais escolas reparativas, integrais, porque, para mim, se não pensarmos nesse adolescente enquanto criança, não pensarmos na escolarização, em estar com a mente ocupada, fazendo o que gosta, um esporte, um curso…, a gente não pode dizer que esse adolescente não vai crescer um adulto satisfeito.

Sabemos que o governo tem essa capacidade, recursos, verbas para fazer várias coisas, mas o problema é que eles não estão preocupados com isso, não. Pois o encarceramento dá mais dinheiro do que o liberto, por isso que eles querem tanto que essas pessoas voltem. É como se fosse um capital de giro; as pessoas são usadas para isso.

Para ir encerrando, que mensagem a senhora gostaria de deixar para quem vai te conhecer, conhecer um pouco mais, por meio dessa entrevista?

Uma das coisas que mais deixo para quem quer que seja é coragem. Porque se você não tiver coragem, vai se perder. O enfrentamento é preciso, então ter coragem de fazer esse enfrentamento é preciso. E nunca desacreditem no amor, pois ele é capaz de curar, transformar, de renovar.

Que o esperançar venha a todo momento, a cada coração, aqueles que estão aprisionados atrás das grades, por uma pulseira, em algum vício, que infelizmente alguns jovens que saem do sistema acabam passando por momentos difíceis, do abandono, da rua. Nunca desacreditem, nunca percam a esperança de que um dia melhor pode chegar. Mas é uma luta que, por muitas vezes, tem que ser contra si mesmo.

Até a gente que é militante, que estamos nessa caminhada, tem medo de estar em determinados lugares por medo da represália, medo daquilo. Eu mesma nem sei mais o que é sentir medo de represália.

Hoje estou estudando para ser assistente social e, daqui a quatro anos, cumprir meu objetivo, que é trabalhar dentro dos presídios.


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