Ele expressou preocupação com o tratamento desigual dos presos ao ingressar no sistema, ressaltando que a experiência é negativa. Além disso, mencionou que as visitas aos familiares são limitadas e a entrada de suprimentos é restrita, o que agrava a situação na prisão.
DESENCADEIA – Depois que você foi preso te levaram para onde? Passou quanto tempo esperando? Te bateram? Você entrou em contato com algum familiar pra informar o que tinha acontecido?
Primeiramente, depois que eu fui preso, fui levado lá para a delegacia metropolitana de Caucaia, porque antes de eu ir para a cadeia, fui para a delegacia da área onde eu morava, na Iparana. Eu passei 4 horas levando uma surra dos policiais, apanhando na cara e sendo torturado com um saco d’água na minha cara. Eu estava ali em cima de um bocado de pedras, eles me batiam tanto, estava algemado de mãos para trás, me batiam e colocavam um saco d’água umas 4 a 5 vezes na minha cabeça. Fui levado para um quartinho, me trancaram lá e me torturaram.
E aí, de tanto eles bateram em mim, que já ia dar 8 horas da noite, porque eu comecei a apanhar era 4 horas da tarde e eles querendo saber de mais coisas e eu não falava. Aí foi onde eles me levaram lá para a delegacia de Caucaia. Eu passei uns 4 dias detido na Delegacia de Caucaia e depois fui transferido para o presídio do Carrapicho, que também fica na Caucaia. E chegando lá não foi um tratamento bom, porque quando a gente entra no sistema, a gente vê cada coisa.
E assim, tipo, quem recebe bem você, é só o preso mesmo, entendeu? Chega lá, pergunta de onde é que você é, se está precisando de alguma coisa. Aí quando vem a visita, que às vezes é difícil também, quando há um suprimento lá fora, ela traz as coisas, algumas entram, mas outras não. Isso é difícil, não tem como você explicar porque quando entra, muda totalmente o que eles falam lá. Preso tem que ser assim mesmo, tem que ter um tratamento para o homem e um tratamento para o pirangueiro.
Como foi a sua vida dentro da prisão? O que mais te marcou? Você tinha acesso à comida, médico ou estudo na cadeia? Como era isso?
O tratamento lá dentro também não é dos melhores. Na questão médica, toda segunda-feira tinha os médicos lá para os presos serem levados, só que não levavam todos, só levavam alguns que estavam para morrer mesmo. Eles não levavam se tivessem só com uma gripezinha, febre ou dor de cabeça, eles davam só um paracetamol ou dipirona e pronto. E sobre a comida, eles ofereciam também uma comida de má qualidade, que não tinha sustância nenhuma, feita de qualquer jeito né?
Quando a comida chegava, todo mundo corria pra cima, morrendo de fome. Aquela fome, aquela sede de comer, mas quando a pessoa ia comer, a gente encontrava era bicho dentro. A comida vinha estragada, cheia de bichos, a gente nem comia, fazíamos era tipo como se fosse um mutirão. Passávamos de cela em cela, perguntávamos quantos presos tinham, aí distribuíamos um ou dois pães pra cada. Pedíamos também um pacote de refresco em pó e fazíamos tipo uma merenda pra todos os presos. E tipo assim, a janta era quase do mesmo jeito. Eles pegam o resto do que sobrou do almoço e misturam aquele angu, botam na quentinha e mandam de novo pros presos. Somos tratados como um bicho lá dentro, entendeu?
O que me marcou muito também lá dentro, foram as muitas mortes que presenciei. Eu via presos sendo cortados, mortos e decapitados na minha frente, né? Eles deitavam o preso no chão, já morto, e começavam a cortar com a faca, que faziam lá mesmo das grades, e jogavam os restos mortais dentro da privada ou então na hora do banho de sol. Era muito sofrimento, entendeu? E em questão de estudo, lá só quem tinha direito de ter mais estudo era o povo que eles chamavam de duzentão.
Eles que tinham mais acesso ao presídio para estudar, fazer aqueles origamis, tipo um pato ou uma estrelinha de papel, um bocado de coisa que eles faziam lá. Quem tinha mais direito eram eles, quem era das ruas A, B, C e D não tinham esse direito não, só as ruas E e F que tinham esse direito de descer para fazer alguma coisa lá dentro.
Você passou por alguma situação de humilhação ou violência dentro da prisão? Como isso te afetou?
Humilhação era só o que a gente passava mesmo, entendeu? Por parte tanto dos agentes penitenciários quanto pela SAP, através dos Policiais Penais. A situação era muito difícil, até por causa de alguns presos que se achavam melhores do que os outros, só porque tinham condições melhores. A humilhação era por parte da GAP (Grupo de Ações Penitenciárias), que toda segunda-feira fazia a revisão dos presos, aí eles chegavam logo com ignorância dizendo que se vocês estão aqui, vocês não tem direito de palpitar em nada, não tem direito de falar nada, vocês só tem o direito de puxar a cadeia e pronto, porque aqui quem manda é a gente, entendeu?
Todo mundo se sentia oprimido ali, só porque usavam uma farda, usavam de abuso de poder da autoridade, falavam muitas coisas, muitas besteiras. Humilhavam até as próprias mães dos presos, chamavam elas e falavam mal dos presos lá na frente delas. Elas sentiam mesmo aquela humilhação e tinham que aguentar calada. Se falassem alguma coisa, eles mandavam os presos pra tranca e tínhamos que passar uns cinco dias lá, com fome, apanhando, sem água e sem nada. Era muito difícil ficar ali e ver aquelas coisas acontecendo.
Quando você saiu da prisão, como foi se adaptar com a vida aqui fora? Quais foram as maiores dificuldades?
A maior dificuldade quando eu saí foi arranjar um trabalho. Porque sempre que eu ia atrás eles perguntavam, né? Você já puxou cadeia? Você tem ficha suja? Aí eu tinha que falar a verdade, que sim. Aí quando a gente falava que sim, que tinha puxado o sistema, o cara dizia que não ia dar certo, porque lá eles só trabalhavam com cidadão. É isso, ficamos mal visto na sociedade e essa humilhação é diária. E dificilmente quando eles aceitam, acabam pagando muito pouco, uns 200 reais por semana. Alguns aceitam, outros não. Às vezes a pessoa volta para o sistema, volta para o mundo, porque a própria sociedade não dá o direito do preso de ressocializar e trabalhar novamente. Ele quer mudar, quer trabalhar, mas eles não pensam nisso. É ex-preso, então que se lasque!
Eu estava parado e consegui trabalho recentemente como egresso na CISP (Centro Integrado de Segurança Pública ), junto com a SAP. Eles pegam os presos que ainda estão no semiaberto e colocam alguns pra trabalhar. Era pra eles pagarem todo dia 30, só que eles não pagam. Deixam pra pagar 15 dias depois, ou seja, trabalhamos 45 dias para receber um salário. Às vezes a pessoa já corre para o outro lado porque o aluguel, a água, a luz não podem esperar por esse dinheiro.
Você recebeu alguma ajuda para conseguir emprego ou moradia depois de sair da prisão?
Sim, depois que eu saí da prisão tive a ajuda de um pastor e de outros amigos que me deram uma casa para eu ficar. Eu não encontrava ninguém para me ajudar a conseguir um emprego. Às vezes eu fazia uns bicos quando aparecia. Uns amigos meus que quando eu trabalhava antes de entrar na prisão, eles que me ajudaram quando eu sai. Eu não era pedreiro, mas quando me chamavam pra trabalhar com eles, eu ia.
Eu fazia assim uns bicos só pra suprir as necessidades de comprar comida e roupas. Quando a gente entra lá dentro, a primeira pessoa que vira as costas para você é a família. É difícil arranjar um emprego quando você é um ex-presidiário. Isso se torna muito difícil. Quando você sai do sistema para entrar no emprego, você vai sempre receber aquele olhar de rejeição da própria comunidade.
O que te ajudou a superar as dificuldades que você enfrentou na prisão e depois dela?
Eu procurei ajuda com os amigos e familiares para me superar. Só que é difícil você superar uma coisa que você passou, que você viu. Estava ali vendo todo tipo de acontecimento, como mortes, humilhações, presos se matando, batendo uns nos outros e sem você poder fazer absolutamente nada. Até hoje me lembro disso tudo, né? Me lembro o quanto eu passei ali dentro, lembro da minha família aqui fora, que eles foram os primeiros que viraram as costas pra mim. Uma delas foi a minha irmã, que falou que não ia me ver na cadeia. É tipo assim, a primeira que dá a facada nas costas é a família. E quando eu saí não foi minha família quem me ajudou, entendeu? Foi um amigo distante do lado da minha mãe. Se eu fosse esperar pelo meu pai, irmão ou irmã, eu acho que ainda estaria lá dentro. Até hoje ainda me lembro, né? Mas é difícil a pessoa esquecer o que sofreu na mão de pessoas que se acham autoridades e que se acham que tem todo poder do mundo.
Como a experiência de ter sido preso te afetou em relação a conviver em sociedade e quanto isso impactou tua saúde mental?
A experiência de ter sido preso não é muito boa não. Eu não quero mais isso pra minha vida e é isso que tô fazendo até hoje. Você é mal falado e mal visto pela sociedade. Foi difícil de eu me inserir na sociedade de novo porque eu ficava pensando, como é que eu vou chegar na sociedade eu sendo um ex-detento? Todo mundo me vê de outro jeito, com outro olhar e de outra maneira. Tudo na boca do povo é ex-presidiário. E isso afetou muito o meu emocional, porque eu pensei, não vou nem conseguir trabalho por causa disso, não vou conseguir nada por causa que o povo tem um olhar muito ruim sobre a gente. Eu pensava, agora o que é que eu vou fazer? Ficava doido da vida, sem saber o que fazer. É como se fosse um pesadelo diário, alguns falam que tu não presta e que não serve pra nada. Tive que correr atrás de coisas que eu não sabia fazer para poder começar a trabalhar. Me afetou muito na parte financeira, eu tive que vender salgados para sobreviver, comecei a fazer suco e saía para vender. Mas mesmo assim, o povo ainda me julgava.
Se você pudesse falar com as pessoas sobre a sua experiência o que você gostaria que elas entendessem? Você ficou com algum trauma? Quais seus planos pro futuro?
Tipo assim, a minha experiência que eu tive como um presidiário foi simplesmente lutar para sobreviver, lutar para não morrer lá dentro, porque qualquer vacilo, qualquer coisinha a pessoa já ia para o paredão. E eu gostaria de falar também para as pessoas que pensam em entrar no mundo do crime, que se acham os valentões, os donos do mundo, que não entrassem nessa vida, porque é uma vida, às vezes, só de ida, não tem volta. Para o futuro eu planejo muitas coisas, eu não quero jamais chegar perto de uma prisão novamente, jamais eu quero estar dentro de uma cela passando humilhação. Eu quero é trabalhar mais e ajudar a minha família, Seguindo em frente, não quero mais olhar para trás, não quero mais lembrar das coisas que eu passei, das coisas que eu vi e vivi lá dentro, muita morte, muita decapitação, pessoas sendo mortas, pessoas vivas sendo esfaqueadas, sendo enforcadas, sendo obrigadas a morrer, entendeu? É difícil você chegar assim na sociedade e quando você fala sobre isso o povo pensa que é mentira. Ninguém merece estar lá dentro do sistema passando por coisas terríveis. E ficam lembrando todo o tempo que se estivessem lá fora fariam diferente, fariam as coisas totalmente ao contrário.
Você participou de algum programa de apoio? Como ele te ajudou?
Na verdade eu nunca participei de nenhum programa desses, nunca participei e nunca fui convidado a participar. Às vezes o que tinha lá dentro mesmo era só o trabalho para a remissão de pena. Você trabalhava e a cada dia que você trabalhasse era descontado na sua pena. Como eu trabalhei muito tempo lá dentro, foi descontado um ano da minha pena porque eu trabalhei muito. Eu ganhei direito ao regime semiaberto e depois fui pro aberto. Eu estou agora nesse projeto do egresso, que já está quase terminando, porque só é para as pessoas que ainda estão pagando a pena e eu já não posso mais trabalhar como egresso porque a minha pena já acabou. Só estou lá até aparecer um trabalho e um rapaz falou que ia me indicar para outro emprego.
Que ano você saiu da prisão? Você cumpriu a pena em qual unidade prisional? Dê suas considerações finais.
Eu fui preso em 2012 e saí em 2016. Passei quatro anos dentro do sistema e o restante da pena fui pagando aqui por fora. Fui condenado a 12 anos, 5 meses e 4 dias. O advogado falava que eu ia passar muito tempo assinando, até 2024. Melhor você assinar aqui fora do que lá dentro, dizia ele. Porque passar 12 anos dentro de uma prisão não é fácil. Eu passei 4 anos e já achei muito, imagine 12 anos. Eu saí sem pulseira até o meu semiaberto, depois passei pelo Carrapicho, pela CPPL3 e por último pelo Olavo II, onde é o fim de carreira. Eu digo e vou repetir sempre que as coisas ficam muito mais difíceis para quem já foi preso. E eu tô aqui para lutar por todos, pra não deixar isso acontecer mais. Tanto com os presos, como as mães e irmãs dos presos. Muitas mulheres ficam ali sofrendo do lado de fora dos presídios naquele sol quente, sendo humilhada pelos policiais penais. É muito difícil, porque eles descontam tudo nas visitas. Então, eu tenho muito a agradecer a Deus por ter sobrevivido ao cárcere, ter me tirado com segurança, com vida e saúde. E hoje eu estou aqui para contar a história e também lutar por aqueles que estão lá dentro também. Valeu!
Acompanhe o Desencadeia por e-mail
Textos, denúncias e reflexões construídas a partir da experiência concreta de quem enfrenta o cárcere e o punitivismo.